O Navegante Do Tempo



Ato 1

“Eu sentia meu corpo flutuar a sobre o chão
Enquanto sua mão retirava todas as minhas esperanças;
Aqueles profundos olhos azuis
Estavam cegos por uma ira que me impedia de gritar;
É engraçado como a vida se torna valiosa em poucos minutos
Mas eu acho que eu merecia aquilo
O peso de suas mãos marca meu rosto até hoje
Isso está comigo
Sempre estará
Acho que meu pai nunca quis me fazer sangrar
De certa forma eu agradeço,
Foi o choro, foi o grito que meu pai tirou de mim
Que me fez ser quem hoje sou”

Eu tenho belos livros de histórias
Eu tenho sonhos que nunca se concretizarão
E nem por isso eu devo parar
Apenas sigo o fluxo
Deixando-me levar pela maré

Amargas lembranças pintam meu rosto
Tristes fábulas que não posso contar
Tenho que abandonar tudo o que perdi
E esperar pelo que nunca terei
Enquanto ainda respiro

Sem lágrimas nos olhos da criança
Sem risos em campos de esperança
Agora lanço minha alma rumo ao desconhecido
Meu porto seguro em mares profundos
O navegante do tempo

Ato 2

“Eu carrego aquele olhar em meus sonhos todas as noites
Não é uma cena tão fácil de se esquecer
Seria pecado crianças perderem as esperanças?
Não sei
Mas deveria ser pecado tirá-las a inocência;
Aquela cinza tarde polonesa me atormenta
Em meio a uma guerra de ódio e dor
O sorriso da morte
A suprema hipocrisia ariana
Tudo o que aquele dia significa
Mais um anjo que o mundo roubou o brilho do olhar
Pobre criança,
Faminta e solitária
Só queria se alimentar com meu pão
Mas o bravo soldado salvou o garoto branco do toque imundo
2 tiros, o silencio
E um sorriso de orgulho pra mim
Ele estava feliz por me proteger de um rastejante judeu
Uma criatura fora dos padrões
E o terror se enterrou em meus olhos
Eu nunca mais dormi em paz”

Eu tive alegres sonhos na infância
Pipas coloridas e campos de grama fresca
Não tenho motivos para acreditar em tristezas
Simplesmente não consigo mais sorrir
Parece um fardo que minha criança carrega

Sinos tocando em sombrias torres solitárias
A primavera se foi e levou todas as flores
Na aurora da juventude, esculpi minha sepultura
O leito de misericórdia tão sonhado
A saída mais rápida para um covarde

Sem lágrimas nos olhos da criança
Sem risos em campos de esperança
Agora lanço minha alma rumo ao desconhecido
Meu porto seguro em mares profundos
O navegante do tempo

Ato 3

“Eles eram heróis no noticiário enquanto eu jantava
Erguiam crianças negras como troféus
Eu até acreditava
Mas ainda me lembro de quando conhecia a terra-mãe
Frágeis corpos moribundos
Donzelas guerreiras estupradas pela ganância
Todas de porcelana
O maldito choro daquela criança ainda ecoa em minhas memórias
Alguém deveria ter salvado ela
Eu deveria ter salvado ela
Mas não
Sua mãe morreu... e ela ainda espera
O corpo estirado na poeira das ruínas
Uma vila acabada
Uma mãe morta pela furiosa fome
Mas aquela criança não saiu dali
Ela ficou
Esperando que sua mãe acordasse da morte
O medo cegou sua alma
Ela poderia morrer ali
E certamente morreu;
Apenas mais uma”

Eu componho longas canções
Choros reprimidos pelo orgulho
E não há nada que eu possa fazer
O tempo passou e não foi minha culpa
Eu só estou sobrevivendo

Balanços, arco-íris e flores de papel
Meu refúgio é o paraíso da ilusão
Relutando em ser o que realmente sou
Vago em inúteis lembranças
Trilhas que eu não percorro mais

Sem lágrimas nos olhos da criança
Sem risos em campos de esperança
Agora lanço minha alma rumo ao desconhecido
Meu porto seguro em mares profundos
O navegante do tempo

por: Willian Quennehen

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